domingo, 8 de janeiro de 2012

O PRIMEIRO NU COLETIVO DO TEATRO BRASILEIRO


Em outubro de 1969, acompanhando os movimentos que clamavam por paz e liberdade em todo o mundo, um espetáculo, surpreendeu o público com o primeiro nu coletivo do teatro brasileiro.

Com texto de Gerome Ragni e James Rado, o musical “Hair” foi um fenômeno desde sua estreia, nos palcos da Broadway, em abril de 1968. Sua montagem no Brasil só foi realizada após uma longa série de negociações de direitos, tanto com os autores, quanto com a censura brasileira, pois, naquele momento, o País se preparava para a pior fase da ditadura militar, com a publicação do Ato Institucional 5 (AI-5), que dava poderes extraordinários ao Presidente da República e suspendia inúmeras garantias constitucionais.

O elenco da montagem contava, entre outros, com os então atores iniciantes Sonia Braga, Ney Latorraca e Antonio Fagundes, além de Nuno Leal Maia, Carlos Alberto Riccelli, Antonio Pitanga e Dennis Carvalho. Como protagonistas, Aracy Balabanian, Altair Lima e Armando Bogus – as únicas personagens que não participam da cena de nudez.

A polêmica cena acontece no final do primeiro ato. De repente, as luzes se apagavam e todos – exceto os protagonistas – encaminhavam-se, inteiramente nus, para um banho coletivo. A repercussão da cena e da peça como um todo era tão grande que, por onde quer que passasse, gerava uma série de ameaças e conflitos com organizações conservadoras. No Brasil, permaneceu em cartaz por mais de dois anos, com atores e atrizes se revezando em todos os papéis.

Quando Ademar Guerra, diretor da versão brasileira de “Hair”, declarou que iria encenar o espetáculo, a curiosidade e estranhamento pareciam tomar conta das pessoas. “Ao ser anunciado que faríamos ‘Hair’, as mesmas perguntas idiotas de sempre voltaram. Você vai adaptar a história de um grupo de hippies americanos para o Brasil?”, descreveu Oswaldo Mendes, no livro “Ademar Guerra: o Teatro de um Homem Só”, uma biografia ficcional escrita a partir de depoimentos de amigos, profissionais do teatro e jornalistas.

A resposta de Ademar era que não seria uma adaptação, mas um espetáculo brasileiro, que tinha como objetivo atrair o público do Brasil sem precisar mudar a versão original.

“Para o bem ou para o mal, ‘Hair’ chamava a atenção por uma breve cena de nu. Mas, naqueles anos de ruptura, era um escândalo. E não só no Brasil. Onde se apresentava havia uma publicidade prévia em torno da tal cena. Eu estava convencido de que, depois da estreia, o que garantiria o sucesso seria a qualidade geral do nosso trabalho, porque a cena de nu coletivo durava alguns segundos em um espetáculo de duas horas. Além de não ser pornográfica nem sensacionalista, como se dizia, a cena sequer chamava a atenção no conjunto do espetáculo, não tinha tanta relevância embora tivesse um sentido”, narra um trecho do livro.

O Retorno


Passados mais de 40 anos da lendária montagem de “Hair” no País, no final do ano passado (2010), os diretores Charles Möeller e Claudio Botelho encenaram o espetáculo em seu retorno ao solo nacional, no Teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro, com um elenco praticamente desconhecido. Com a tradicional cena de nudez presente, a surpresa ficou por conta do público, que foi convidado a subir ao palco no final da apresentação.

E os diretores não param por aí: no começo de 2012, trazem “Hair” para São Paulo, no Teatro Frei Caneca, de 14 de janeiro a 29 de abril. Existem rumores de que a produção está fazendo convites para compor um novo elenco.

O que não muda, e talvez seja o maior mérito para o enorme êxito de “Hair”, é que ela é uma peça universal, explicou Charles Möeller. “’Hair’ não fala de uma guerra específica e sim do horror da guerra. O grito de liberdade do musical ecoa em todos os lugares. A segregação racial ainda existe, a homofobia, a misoginia, a falta de tolerância com opções sexuais e religiosas”.

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